Carta aberta sobre a discussão de gênero do MPL-SP

Antes da luta contra o aumento de 2013, o Movimento Passe Livre de São Paulo sentiu a necessidade de se reunir para fazer um balanço sobre como a questão de gênero era tratada no movimento até então. Redigimos posteriormente uma carta, fruto de nosso processo de discussão. Não a publicamos porque seu conteúdo não é consensual dentro do movimento. Não por oposições a construção de um espaço menos opressivo dentro do MPL, mas por uma divergência de estratégias para alcança-lo. Publicamos a carta nesse momento, por esta discussão ter sido retomada. O fato dessa publicação ter sido protelada é mais uma expressão de como a a discussão de gênero, assim como a discussão de outras opressões, é colocada em segundo plano por diversos movimentos sociais (como o nosso), fato que evidencia a opressão que está enraizada mesmo em espaços que pretendem combatê-las.

A Publicação dessa carta expressa essa discussão interna – que é um processo em aberto – assim como possui reflexões com elementos trazidos por outros grupos. É por isso que acreditamos nesse debate publico, de uma discussão que seguimos fazendo.

 

Carta aberta sobre a discussão de gênero do MPL-SP

Esta carta é uma publicização da discussão de gênero dentro do Movimento Passe Livre: das suas reflexões, erros e perspectivas. Não é um ponto final, mas parte de um processo permanente de discussão e auto-crítica.

Entendemos que não existe espaço horizontal em uma sociedade desigual. Assim, vivemos uma enorme desigualdade de gênero em nossa sociedade, que inevitavelmente se manifesta também nos movimentos populares, e por isso se faz fundamental um processo constante de desconstrução dessa desigualdade em nossos meios.

Nesse sentido, essa carta é ao mesmo tempo fruto e estopim deste processo, onde buscamos compartilhar publicamente algumas das reflexões que amadurecemos.

Por ser um problema social, a questão de gênero deve ser tratada na esfera pública, e não como um problema privado que se discute em espaços fechados. A discussão em espaços fechados mostra a reprodução de uma lógica que confunde o pessoal e o político, colocando a questão da violência machista como algo a ser tratado entre quatro paredes.

Uma experiência marcante para o movimento foi um caso de agressão machista por parte de um militante, ocorrido em 2011. Hoje, conseguimos avaliar que cometemos uma série de erros, a despeito de alguns acertos e avanços, que na época não pudemos perceber.

Na ocasião, erramos ao misturar o pessoal e o político, pois entendíamos que tratar do assunto dentro dos espaços políticos do movimento era equivalente a publicizar a questão.

Na época existia dentro do movimento uma correlação de forças que garantiu que a postura de alguns militantes, que insistiam em privilegiar uma perspectiva pessoal em detrimento da política, tivesse um peso maior sobre aquela dos que buscavam uma atitude mais firme como resposta à situação de agressão. Isso reflete a dificuldade de posicionamento experienciada pelas mulheres no cotidiano, inclusive nos espaços políticos. Dessa forma, foi adotado um ponto de vista muito mais voltado para a situação do agressor do que para a da agredida.

Erramos também por não entender que adiar um posicionamento era tomar uma posição, e que o não posicionamento implicava, dentre outras coisas, em uma conivência com a opressão às mulheres e no constrangimento de diversas pessoas a participarem dos atos públicos chamados pelo MPL.

O contexto de pressões e grande quantidade de demandas imposto pela luta contra o aumento de 2011 foi fator importante para que a discussão não tivesse sido feita com a qualidade e o tempo necessários. Porem, erramos ao apontar este como um fator exclusivo e determinante para esse postergamento, e também por não priorizar a existência de um espaço auto-organizado de mulheres para que fosse feita a discussão sobre a agressão ocorrida logo em um primeiro momento. Entendemos que este espaço teria sido um meio capaz de facilitar a participação das mulheres nos debates públicos, tendo como uma das principais finalidades nos empoderar para que as diferenças existentes na esfera política sejam superadas.

É fundamental que o espaço auto-organizado cumpra um papel de eliminar as dificuldades colocadas para as mulheres de participar com a mesma facilidade das discussões, promovendo uma verdadeira horizontalidade. Acreditamos também ser de fundamental importância combater as práticas machistas que se manifestam dentro da militância, como por exemplo na forma como se consideram determinadas “tarefas femininas” ou se fetichiza o papel da mulher na luta. Combater estas práticas, não delegando funções organizativas sempre e somente às mulheres, garantindo a participação feminina nos espaços públicos, entre outras iniciativas, é tarefa fundamental a ser alcançada diariamente em todos os espaços políticos que se pretendem anti-hegemônicos.

A agressão de gênero ocorrida em 2011 deflagrou a urgência de um avanço significativo nas discussões internas do movimento. Tardiamente, realizamos uma série de discussões, que de certa forma se refletiram na postura que o MPL-SP adotou ao lidar com um caso de agressão machista por parte de um militante do MPL-Curitiba em 2012.

Em um primeiro momento procuramos promover uma discussão entre o movimento nacional sobre o assunto, e na ausência de qualquer disposição de esclarecimento por parte do MPL-Curitiba, manifestamos veementemente nosso repúdio ao ocorrido ( http://saopaulo.mpl.org.br/2013/05/19/nota-do-mpl-nacional-sobre-a-expulsao-do-coletivo-de-curitiba/ ). No processo colocamos nossas experiências e nossos erros de 2011, para que não se repetissem mais uma vez, e acabamos por defender a expulsão do coletivo MPL-Curitiba do MPL nacional. Entendemos que essa postura foi um grande avanço em relação à postura adotada pelo MPL-SP em 2011, e fruto do processo pelo qual passamos após todo o ocorrido.

Nesse sentido, entendemos que o movimento, como qualquer espaço de militância, passa por um processo constante de discussão e amadurecimento no que se refere ao enfretamento da opressão de gênero, e que é fundamental para contribuir com essa luta à publicização de uma auto-crítica e das reflexões e processos pelo qual o movimento vem passando.

Queremos deixar claro nossos avanços em relação à postura que adotamos em 2011, a importância de se colocar a crítica publicamente, e que não mediremos esforços para que os erros não se repitam. O objetivo é que os espaços do Movimento Passe Livre sejam espaços que contribuam para fortalecer a participação das mulheres na luta política, nos quais elas se sintam confortáveis para circular seguramente e desfrutem do direito de resposta às agressões caso desejem exercê-lo.

Mais do que isso, buscamos caminhos livres de machismo ou qualquer sectarismo que tolha o avanço sincero dos militantes, do movimento e da luta de forma geral.

Não precisamos saber de onde virão as próximas agressões para saber que elas virão. Esperamos contribuir para que, quando elas ocorram, não adotemos o ponto de vista (pessoalizante) do agressor e as tratemos como questões políticas fundamentais para a nossa luta e para o mundo que lutamos por construir. Quem deve se sentir constrangido a participar de todos os espaços políticos é o que oprime, e não a oprimida.

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One Reply to “Carta aberta sobre a discussão de gênero do MPL-SP”

  1. Salve, me surgiram algumas dúvidas, a ver se podem esclarecê-las.

    1) “Por ser um problema social, a questão de gênero deve ser tratada na esfera pública, e não como um problema privado que se discute em espaços fechados”. Vocês defendem que sempre que há um caso de violência de gênero dentro de um movimento, a discussão a respeito disso deve ser publicizada, ou seja, feita fora dos espaços do movimento?

    2) Na carta pública que fizeram em 2011, vocês apontam que mecanismos como escrachos devem ser realizados com aqueles com os quais não queremos diálogo, com nossos inimigos, aqueles que nunca estarão do nosso lado. Nessa carta de 2013, vocês terminam dizendo que “quem deve se sentir constrangido a participar de todos os espaços políticos é o que oprime, não a oprimida. Na opinião de vocês atualmente, defendem que a pessoa que cometeu a opressão seja constrangida de participar dos espaços políticos?