Sobre a escalada repressiva

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“Repressão é a prova mais concreta que o sistema nos oprime” – Sabotage

Nas últimas semanas vivemos uma escalada de repressão que tenta calar todas as vozes que dissonam dos de cima e de seus poderes: o Estado, a  polícia, a mídia. No dia 6 de setembro, pessoas que lutavam por moradia e condições de vida menos humilhantes foram duramente reprimidos pela polícia. A PM do Distrito Federal deixou um saldo de mais de 20 feridos, com três pessoas internadas, entre eles uma criança em estado grave, e uma mulher que corre o risco de perder a gravidez pelos efeitos provocados pelo gás de pimenta. Essa foi só uma das armas que a PM usou durante as manifestações que se seguiram nesses dias: canil, canhões de água, balas de borracha, gás lacrimogêneo, armas de choque e de espancamento, estiveram sempre presentes nesses atos. Além dos feridos, 6 pessoas foram presas, 2 delas acusadas de formação de quadrilha, por participarem do protesto.

Diferentemente do discurso que vem sendo construído pela mídia, pela polícia e pelos governantes, essa repressão de famílias, de mulheres, de crianças – independentemente de terem o rosto a mostra- evidencia que a violência do Estado tem um único motivo: defender o interesse dos de cima, aqueles que se beneficiam da situação de injustiça contra a qual lutamos.

Contra os que continuam resistindo, o Estado cria leis cada vez mais intimidadoras. Só assim que podemos compreender a lei recentemente aprovada pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, e medidas tomadas em estados como Pernambuco e Ceará, todas claramente inconstitucionais, que proíbem o uso de máscaras por parte dos manifestantes. Enquanto isso, a polícia segue sem usar identificação. Agora, renova a estética, usando aquilo que tanto critica em nós: as máscaras! O tão criticado anonimato serve à polícia e a quem manda nela, que ameaçam a nós e as nossas famílias, como ocorreu com companheiros que lutaram contra o aumento da tarifa em  Osasco; invadem nossas casas e levam nossos computadores, como aconteceu com companheiros da linha de frente das manifestações do Rio de Janeiro;  nos sequestram e nos torturam, como aconteceu com a companheira do Recife.

As tentativas de impedir os protestos, seja os que bloqueiam as rodovias (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/09/sptrans-obtem-liminar-que-garante-circulacao-de-onibus-em-protestos.html) ou as grandes avenidas da cidade, são também uma tentativa de separar os que lutam no mesmo lado da trincheira, aqueles que sofrem dentro do transporte coletivo e os que lutam para transforma-lo. Agora, numa tentativa de criminalizar cada vez mais quem luta, tenta-se aprovar no Brasil uma lei antiterrorista que prevê prisões de até 30 anos pra aqueles que a justiça julgar estar causando distúrbios à “ordem” por motivos políticos e ideológicos.

O dia 7 de Setembro de 2013 trouxe para as lentes da mídia o que nós que resistimos estamos sentindo na pele: uma escalada repressiva. O jovem que perdeu o olho, os manifestantes atropelados, as pessoas ameaçadas por armamento letal e os que sofreram com todas as outras violência da polícia nesse dia são a face mais visível desse processo. Em nome da suposta “ordem”, querem acorrentar quem resiste, impedir a imaginação e minar a construção de outra cidade, outro mundo.

A última pessoa que continua presa dos atos contra o aumento de São Paulo é uma mulher, negra,  moradora de uma ocupação urbana, supostamente pega com um cobertor,roupas e um item de higiene pessoal. Ela é expressão de quem esta “ordem” manda prender. A repressão contra as manifestações é política, como é política toda a repressão empreendida pelo Estado brasileiro. Na defesa dos ricos, o Estado deixa uma trilha de espancados, torturados, mutilados, desaparecidos, mortos. Toda vitima é uma vitima política. Todo preso é um preso político.

Eles tentam nos organizar, nos calar, nos prendendo nas periferias, nos ônibus lotados, nas celas das prisões, nas valas comuns. Mas nunca baixamos nossas cabeças. Dos quilombos as guerrilhas, das ocupações aos protestos, a resposta a opressão é uma só: organização e luta dos de baixo e à esquerda.

TODA FORÇA PARA QUEM LUTA POR UMA VIDA SEM POLÍCIA, SEM GRADES, SEM ESTADO E TODAS AS CATRACAS QUE TENTAM NOS CALAR.

Movimento Passe Livre – São Paulo

12 de Setembro de 2013

 

(Na foto acima, companheiro sendo espancado pela Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana durante o sexto grande ato contra o aumento da tarifa para R$3 em São Paulo, em 17 de fevereiro de 2011. Leia mais aqui)

3 Replies to “Sobre a escalada repressiva”

  1. Nota oportuna, correta em seu eixo, mas perdeu o rumo ao falar da “repressão de famílias, de mulheres, de crianças “, não uma, mas três vezes. Que isso, gente? Se fossem sem família, gays, homens, adultos, tudo bem? Isso não fortalece o argumento, pelo contrário.

  2. Ler o texto de voces faz eu sentir um pouco de esperanca.
    Obrigado.