“Quem se beneficia?”

negocio

Texto originalmente publicado na seção “Tendências/Debates” da Folha de São Paulo no dia 9 de dezembro de 2013.

A luta por transporte público não começou nem terminou em junho.

O Movimento Passe Livre luta pela tarifa zero pois entende que a exigência de pagamento pelo uso de ônibus, trens e metrôs nega o direito à cidade, limita a circulação das pessoas, impede o acesso a escolas, hospitais e espaços de lazer.

Neste ano, em São Paulo, somou-se à tarifa zero a luta pela revogação dos cortes de linhas de ônibus feitos pela prefeitura. Em 2006, ocupamos a Secretaria de Transportes pelo mesmo motivo. Mudam as gestões, repetem-se os erros.

Segundo a SPTrans (São Paulo Transporte), o objetivo é cortar 405 linhas. O que a prefeitura chama de racionalização, as pessoas sentem como descaso. Em vez de a medida diminuir o tempo das viagens, como divulgado, vemos ele aumentar.

Essas ações não foram discutidas com a população. Convidar ao diálogo quando consumadas soa como demagogia. A SPTrans ignora que quem usa o transporte há anos sabe mais sobre ele que qualquer técnico e opta por medidas autoritárias, que não atendem aos interesses das pessoas.

As manifestações comprovam: a insatisfação não é causada pela mudança brusca de hábitos cultivados durante anos, mas sim pelo transtorno de ter que trocar de ônibus várias vezes e enfrentar novas filas, ônibus mais lotados e longas esperas. A violência é diária.

Mas se o corte de linhas não beneficia a população, há quem se beneficie dele. Quem afirma que quanto mais longas as linhas, maior o lucro dos empresários omite como funciona o sistema de transporte e a remuneração das empresas.

De acordo com os contratos atuais e com a licitação cancelada, as empresas são remuneradas por passageiros transportados. Quanto mais a catraca gira, maior o lucro. Quer forma mais eficiente de girar a catraca que seccionar as linhas?

As empresas só têm a perder com longas linhas, que ligam as periferias ao centro da cidade –modelo que tem se mostrado mais adequado às necessidades das pessoas.

Se o ganho é por passageiro, os empresários não estão preocupados com o trajeto, mas com a quantidade de passagens que receberão.

O Bilhete Único Mensal ao valor de R$ 140 (R$ 230 integrado ao metrô) é uma política eleitoreira da prefeitura que não altera estruturalmente o sistema de transportes e não foi aderido nem sequer por 4% dos usuários do bilhete comum. O bilhete mensal custará ao menos R$ 400 milhões por ano, cerca de 33% do atual subsídio pago às empresas. Valor esse que poderia ser utilizado para reduzir bem mais do que R$ 0,20 na tarifa de todos.

Cortam-se linhas, criam-se novos bilhetes, e as empresas continuam recebendo o valor total da passagem! Se a intenção é promover acesso ao transporte, não é melhor reduzir a tarifa? Se a intenção é reduzir custos, não é mais racional a remuneração das empresas se basear no custo do sistema?

A prefeitura nem sequer sabe exatamente qual é esse custo, como demonstrou a SPTrans em fórum do Ministério Público. Esse desconhecimento só favorece interesses privados. Não vamos nos calar perante uma cidade que se organiza de acordo com os interesses de poucos. Agora é o povo que vai mandar no transporte. Agora é o povo que vai mandar na cidade!

One Reply to ““Quem se beneficia?””

  1. MPL Eu gostei muito do texto, mas infelizmente a população brasileira, na sua maioria, não se conscientiza com base em textos. Ela gosta de assistir. Se vocês fizessem vídeos nos ônibus lotados em horário de para constatar o descontentamento e o aperto seria muito melhor. Façam pergunta para os entrevistados se ele participaria de um protesto para poder chegar em casa todo dia mais cedo ou ficar num onibus com no mínimo mais espaço para colocar o pé e esperar seu ponto para descer… Lembre-se, nós só vamos conseguir mudar o sistema conscientizando as pessoas… esse é o segredo. conscientizar! Fiz um texto também no blog quemeres.blogspot.com. Acho que você poderiam abordar pontos de vista onde um transporte público atrapalha a vida do cidadão. Trânsito, Gatos com transporte próprio, o preço que influencia no nosso orçamento e até as mortes no trânsito causadas justamente pelo excesso de carros… Toda força ao Movimento Passe Livre!