Nota em resposta à declaração de Lula sobre a revolta popular de 2013

Nós, do Movimento Passe Livre de São Paulo, lamentamos a forma desrespeitosa com que o ex-presidente trata as centenas de milhares de pessoas que saíram as ruas em 2013 – entre as quais certamente estavam muitas das que o elegeram.

Infelizmente, na narrativa construída por Lula, a luta por um transporte verdadeiramente público é simplesmente apagada. Ao comparar a onda de protestos que aconteceu aqui àquelas que têm tomado diversos países da América Latina, ele afirma que a diferença é que no Brasil não fomos às ruas para lutar por direitos e não tínhamos reivindicações específicas. Nada poderia ser mais distante da realidade. Todas as manifestações que organizamos tinham um objetivo claro: fazer com que o aumento na tarifa dos transportes fosse revogado.

Desde que o Movimento Passe Livre existe (ele foi fundado em 2005), toda vez que o preço das passagens de ônibus, trens e metrôs sobem, organizamos manifestações. Aliás, é importante lembrar que as lutas contra o preço das passagens acontecem desde que existe a tarifa. E que a luta para garantir que toda a população possa circular e acessar todas as infrestruturas da cidade é a luta que, hoje e sempre, virá dxs de baixo, dxs periféricxs, dxs trablhadorxs.

Devido a uma série de acúmulos e à ampla participação da população, em 2013 vivemos uma revolta popular: manifestantes tomaram as ruas dos centros e periferias de centenas de cidades do país.

Contudo, em vez de ouvir as demandas populares, compreendendo que o transporte é uma necessidade central na vida de quem mora nas cidades brasileiras, a primeira resposta dos governantes da esfera federal, estadual e municipal daquele período foi a criminalização dos protestos de rua. A população não recuou. E vivemos algo inédito: os aumentos de tarifa foram revogados em mais de 100 cidades!

Mas, para Lula, as jornadas de junho de 2013 foram uma manipulação externa orquestrada para garantir o impeachment de Dilma. Por quê? Do seu ponto de vista, Lula pressupõe que enquanto tivermos governantes que se pretendem de esquerda, não pode haver lutas massivas por direitos. Mas, não deveria ser o contrário? Se um partido se diz voltado às questões sociais não caberia ouvir o que diz a população, quando esta se revolta por ter que pagar por um transporte precário, que só serve para dar grandes lucros aos empresários, restringindo a circulação da população pobre e periférica?

Na verdade, o mais grave dessa situação não é que Lula deslegitime as chamadas Jornadas de Junho.

Muito pior do que isso foi e é a criminalização das manifestações e dos manifestantes, a escalada repressiva e a militarização, que caminharam à passos largos desde o governo de Dilma. Exemplo disso, foi o “inquérito black bloc”, de 2014, uma investigação incostitucional, em que não houve a apuração de nenhum crime específico e que, sob o pretexto de identificar adeptos da tática “black bloc”, colheu declarações com a intenção de formar um grupo de suspeitos a priori. Dois anos depois, em 2016, o mesmo governo de Dilma aprovou a “Lei Antiterrorismo” – esta sim, uma política sabidamente defendida pela CIA -, que abre margem para o enquadramento de um série de práticas de reivindicação não reconhecidas pelos governantes como legítimas. Daqui debaixo, entendemos que essas sim são as escolhas políticas que tem o poder de fortalecer a direita e o fascimo na sociedade.

Lula clama pelo “direito de sonhar” do povo. Também é esse o nosso desejo.

Mas, daqui debaixo, acreditamos que quem sabe melhor dos seus sonhos é o próprio povo e que eles não podem ser descartados em nome da “governabilidade”. Pois as nossas revoltas não cabem na lógica das urnas.

Daqui debaixo, também aprendemos com as mobilizações por transporte no Brasil e com as atuais revoltas na América Latina. Aprendemos que só com a luta conquistamos nossos direitos. Por isso, continuaremos ocupando as ruas da cidade contra a tarifa e seus aumentos, até o fim de todas as catracas.

Convidamos todos e todas que não aceitam pagar cada vez mais para circular cada vez menos, a participar da Primeira Manifestação Contra o Aumento de 10 centavos, no dia 7/1/2020, a partir das 17h, na frente da Prefeitura.

Movimento Passe Livre de São Paulo